"O amor não prende, não aperta, não sufoca. Porque quando vira nó, já deixou de ser laço." (Mário Quintana)
24 maio 2011
19 maio 2011
Fuga
O fechar de olhos, reflete
A fuga do eu atormentado
Na descrença de tudo que verte
De um sonhar demasiado.
Na sua inteira intangibilidade,
A realidade ecoa em outros brados
Silenciosos pra minh'alma insone
Num sorvedouro obstinado.
A busca de sentido completo
Na abstração da realidade,
Reflete vivas contradições
Desvirtuosas da verdade...
A projeção da expectativa
Frustrada num apelo intenso
Faz povoada a mente sã
Com a dúvida e o silêncio...
Que seja ele pois o espelho
Das minhas doces inquietações
E também o conselheiro sábio
Dos meus apelos e ilações...
Karina Alcântara
26 abril 2011
Idílio
Densa quietude Emerge do meu silêncio, Inundado de anseio. Por tudo que não quis Por tudo que perdi. Tarde dúlcida Que translúcida, Rasga-se ao encontro da noite. Feito eu em meu regaço De amor inacabado.
Karina Alcântara
23 abril 2011
Vento
O vento que sopra Leva de mim A sujeira da alma...
O vento que sopra Traz pra mim A limpeza da aura...
Que ele seja pra mim A vastidão do contentamento Na nobre realização da euforia.
Que oportunize em mim A ressonância do amor Em sua plena harmonia.
Faz em mim mais do que devia No contraste da minha abrangência Incauta permanência Que por si só, enebria...
Karina Alcântara
20 abril 2011
Encantamento
Nada tenho nas mãos...
Só o sol me brilha dentro
Numa espécie de encantamento.
Um fogo que não se apaga,
Mas nas mãos, nada se vê...
E de tanto que se queima
O corpo em ardente chama
A fugacidade do enlevo clama
No pensamento que ora teima...
Volto a face à realidade
Na crueza da insensatez.
Aterrisso em ébria poesia,
Cobrindo de beijos tua tez...
E assim persigo minha sina,
De amar sem poder ter.
Numa espécie de encantamento,
Mas nas mãos nada se vê... Karina Alcântara e Luciana Seloy
18 abril 2011
Tempos Idos...
O caminho que hoje busco
Foi o que outrora feneceu
Entre medos pueris
E anseios juvenis.
A transitoriedade da felicidade
Que faz pouso em meu íntimo,
Acalento-a entre sonhos e devaneios.
Célere e diáfana
Dilui-se a cada arfar
Do peito a sorver
A saciedade em gotas
De amor aprisionado,
De dor liberta,
De inação incontesta
Nos caminhos da desilusão completa...
Karina Alcântara
17 abril 2011
Realidade
Por mais que se queira,
O incerto não enseja
Por mais que se deseje
O improvável não viceja
Por menos que se queira
O inevitável sobrepuja
Por menos que se deseje
O previsível se acusa
O que se foi pretendido e não concretizado
Perdeu-se das teias da oportunidade...
Por mais desconsolo que se tenha produzido
A compunção, no peito oprimido,
Não fará remontar no tempo
O que se foi fragmentado...
Karina Alcântara
07 abril 2011
Sol Interior
Que sempre, o nosso dia seja de sol interior!
Para que os reflexos de nossos raios possam ofuscar os eclipsados que nos rodeiam...
Eles são assim turvos, por alimentarem no seu íntimo as chagas perniciosas da inveja e da frustração.
Agem como autômatos ao comando das sensações inferiores que embotam a mente, sede divina do núcleo da inteligência e do sentimento.
Semeiam em mentes invigilantes e sugestionáveis, a discórdia, fruto da maledicência oriunda de suas percepções insalubres e doentias.
E nesse manancial maculado, de onde brota a felicidade? Surgirá da faxina mental que porventura decidam realizar dentro de si.
Todavia, essas pessoas, por seus atos, nos servem de ferramentas para exercitar o perdão, na sua mais pura inteireza.
Exercitam-nos a tolerância em preciosas oportunidades.
Ajudam-nos a entrever o errôneo caminho que decidiram seguir, evitando-nos assim, as futuras quedas.
Conscientizam-nos das seqüelas dolorosas oriundas das desvirtuadas atitudes que por ignorância resolveram adotar.
Dessa forma, a falseada ideologia que fazem uso, os levam a descaminhos morais, que inevitavelmente, possibilitarão em tempo oportuno, as bênçãos do arrependimento quando então, buscam em meio ao pranto interior, o caminho redentor...
Karina Alcântara
28 março 2011
Convicção
Céu plúmbeo...
Aragem fria...
A rusticidade do caminho contrasta poeticamente com o cenário da natureza outonal, aquarelado em tons alaranjados.
O bucolismo do local enseja a reflexão acerca de um poder criador que paira bem acima de nossas estreitas percepções.
O silêncio é entrecortado vez ou outra pelo trinar de alguma ave solitária que busca naquele recanto, o vôo revigorante.
O dia declina...
Na singela estradinha de terra, a incerteza da passagem de algum transeunte àquelas horas devido à proximidade crepuscular, era evidente.
Entretanto, na morbidez das horas, passos céleres e imperceptíveis no princípio, foram sendo divisados, e pouco a pouco, personificados na figura de um homem. Envergava uma veste monástica escura, sandálias e um rosário cingido ao cordão que trazia preso a cintura.
Seguia seu roteiro totalmente alheio ao cenário natural envolto em terríveis conflitos interiores.
O largo capuz ocultava a figura de um jovem belo e com um senso altruístico extremamente desenvolvido, que desde cedo, obedecendo aos apelos de seu coração, optou pela missão na caridade e no amor. Ficou conhecido na vila em que prestava seus serviços sacerdotais junto ao povo sofrido, como Frei Igor.
O rapaz trazia as faces molhadas pelo pranto que extravasava a emoção que lhe tolhia o ânimo... Suas bases vocacionais tão bem urdidas e aprimoradas sofreram sérios abalos em suas estruturas ao serem testadas por outro tipo de amor... No primeiro momento, o enlevo... Posteriormente, o atestado de que a primeira paixão visitava seu jovem coração...
Costumava sempre buscar refúgio na meditação e era naquele local que encontrava a paz necessária. Naquele momento sua mente estava atribulada e visitada por um único pensamento: a renúncia.
Chegando ao final de sua trilha, divisou o caudaloso rio com suas águas mansas. Sentou-se à margem, baixou o capuz e pousou os expressivos olhos castanhos no firmamento...
Naquele momento, entregou-se a sentida prece buscando o lenitivo necessário para a tomada de decisões que se faziam necessárias. Tinha a plena consciência que jamais poderia dar vazão ao amor que instalara-se silenciosamente em seu coração. Sua convicção interior desde muito o tem fortalecido e mantido firme no propósito maior a que sempre se propôs: seu missionato.
Naquele momento, entregou-se a sentida prece buscando o lenitivo necessário para a tomada de decisões que se faziam necessárias. Tinha a plena consciência que jamais poderia dar vazão ao amor que instalara-se silenciosamente em seu coração. Sua convicção interior desde muito o tem fortalecido e mantido firme no propósito maior a que sempre se propôs: seu missionato.
E chorou...
Quando deu por si, já era noite e a chuva começava a cair...
Levantou-se, ajeitou o capuz sobre a cabeça e refez seu trajeto de volta. Mas, dessa vez, o fez com uma extrema paz interior. Sentia uma leveza indefinível. A chuva que agora caía mais forte, lavava além da terra do caminho, a sua alma, levando pra longe a inquietação e a dúvida que terminara por acalentar dentro de si.
Olhou mais uma vez para o Alto. Agora suas lágrimas eram de gratidão e reconhecimento Àquele que é Pai de todas as coisas. Era Nele, que sempre depositaria todo o seu ideal de vida e sua fé.
Karina Alcântara
21 março 2011
Puerícia
Barulho de chuva lá fora...
O cheiro úmido exala de fora para dentro de mim.
Sinto a saciedade da alma, nas reminiscências da minha infância...
Tempo bom... Tempo que vai longe, mas ao mesmo tempo, tão perto nas minhas recordações...
A friagem sopra adentrando a abertura sutil da janela, irrompendo em mim, sensações benfazejas há muito adormecidas nos recônditos da mente.
Sensações que me construíram ao seu tempo...
Que foram extremamente benéficas para meu alicerce emocional.
Que me fizeram companhia enquanto presentes nos pequenos detalhes da vida, do cotidiano...
Esse contexto mnemônico me traz saudades. Mas saudades adocicadas, perfumadas, embaladas pelo onirismo da realidade que a vida pueril nos proporciona.
Cheiro de infância...
Cheiro de magia, de folguedos, de faz-de-conta, de cores, onde a realidade retarda sua presença, dando a oportunidade aos sonhos, de embalar-nos...
Os acordes melodiosos de composições infantis, ainda ecoam nos ouvidos.
Um tempo onde a infância era garantida.
Onde tínhamos o direito de sonhar.
Onde investíamos inteiramente na condição de ser criança...
Karina Alcântara
15 março 2011
Um Sonho
A escuridão que me alcançava não sei se era do meu interior...
Fato é que me encontrava percorrendo veredas desconhecidas e ermas buscando refugiar-me do que, eu não sabia identificar.
Adentrava em vielas, ruas e becos do que parecia ser uma pequena cidade...
Sentia minha respiração acelerada, tanto quanto as aflições que iam no meu íntimo.
Já dia claro, lembro de avistar uma simples moradia. Casinha branca, teto baixo igualmente à mureta que abrigava pequena portinhola.
Ao chegar, abri o portãozinho e à minha frente estava a fachada da casa com duas janelas de madeira e um corredor ao ar livre à direita. Logo à primeira porta à esquerda entrei. Uma pequena sala com algumas pessoas aguardando e algumas cadeiras vagas... Entrei, sentei e quase que intuitivamente, aguardei alguém.
Ouvia um vozerio imperceptível do outro lado da parede... Havia um corredor saindo da pequena sala de onde eu não tirava o olhar... Eis que assomou à sala vindo do corredor, um rapaz que olhou pra mim e fez um sinal para que o acompanhasse. O fiz quase mecanicamente, sem titubear e de cabeça baixa...
Saímos da casa demandando a rua. Em frente à casa passava uma estrada de terra, e só agora dei-me conta que ali era um lugar alto. Saímos conversando lado a lado primeiramente silenciosamente, tempo que me facultou a observação do lugar onde nos encontrávamos... Nas proximidades, nenhuma outra construção. À nossa direita, podíamos apreciar a vista panorâmica. O encontro do céu com o verde tapete natural era de uma beleza acalentadora...
Caminhávamos lado a lado e em certo momento, ele passou o braço em meu ombro, o que correspondi o abraço. Entendi que naquele momento eu já podia começar a narrativa das minhas aflições. Ele me escutou até o final sem questionamentos nem interrupções... Ao terminar minha preleção, ele estacou e me virou de frente pra ele. E a emoção tomou conta de mim quando nossos olhares se cruzaram... Imediatamente fui arrebatada por forte sentimento de carinho, amizade e confiança... Um amor fraternal numa intensidade nunca antes sentida de minha parte... Seu olhar era um misto de ternura e seriedade. Eu podia perceber que ele tinha grande ascendência moral sobre mim pelo respeito que sua presença me infundia.
Só então eu pude observá-lo. Pele alva, olhos escuros e muito expressivos, cabelos pretos bem penteados à moda tradicional. Ele me dava a impressão de o conhecer de há muito tempo, de sermos velhos conhecidos...
Pude desfrutar durante sua companhia, das energias salutares dos seus muitos conselhos sábios. Seu verbo fácil era o lenitivo que eu precisava para o fortalecimento de minhas bases espirituais.
Perguntei seu nome e ele falou: Alexandre!
Então nos despedimos com um longo abraço, e com afabilidade ofereceu-me sua disponibilidade no momento em que eu desejasse. E acrescentou que eu sabia onde encontrá-lo...
Acordei com as impressões mais profundas desse encontro, e que ainda perduram na minha alma...
Não vi asas, não vi halo, mas sua grandeza espiritual paira muito acima da minha...
Karina Alcântara
12 março 2011
Remissão...
Olho pro céu ...
Sinto mais do que vejo.
A totalidade que me preenche a alma
E circunda minha intimidade,
Faz-me projetar num mundo
Que por seu atributo superior
Impulsiona-me à cura transformadora.
Sinto-Te a reger minha vida.
A amar-me incondicionalmente,
Mesmo frente aos meus desatinos
E vias que voluntariamente escolhi trilhar...
Com Teu amor silencioso, mas profícuo,
Deixa-me enveredar na minha tortuosa consciência...
Pois, se pelo amor não aprendo,
É pela dor, mãe das minhas escolhas deturpadas
Que irei divisar o caminho
Que me leva a Ti...
Pelo sofrimento, filho da invigilância,
Derramo lágrimas abençoadas,
Que lapidam minha alma como um buril remissor.
E gradativamente, apreendo em meu ser
As luzes da Tua lição de Amor...
Karina Alcântara
10 março 2011
Um Missionário...
Tudo era simplicidade...
A justaposição da parca mobília, emprestava uma harmonia contagiante a quem pudesse vislumbrar o ambiente interior daquela simples moradia.
A miscelânea de odores com notas florais ajustados perfeitamente ao cheiro de limpeza que imperava, é simplesmente balsamizante.
Em humílimo, mas digno fogão a lenha, fumega a última refeição do dia: um caldo de legumes que reconforta pelo aspecto e aroma que exala.
A casa não é grande, mas o suficiente para albergar qualquer transeunte que cruzasse aquelas plagas em busca de refrigério espiritual.
O piso é de tijolo de adobe de cor clara, confeccionado por mãos hábeis e artesãs, cuja dedicação impressa nesse revestimento bruto aliada à atmosfera reinante, torna-o de uma delicadeza singular. A cobertura se faz adornada por telhas sustentadas por uma estrutura de caibros e ripas muito bem dispostos. É perceptível a maestria com que o anfitrião mantém a limpeza e organização do seu lar. Nada destoa naquele conjunto. Nenhuma peça está em desconformidade. Na mesa de madeira tosca da cozinha, um gracioso jarro com flores colhidas pela manhã atesta o gosto pelas belezas naturais que vicejam naquela região.
Leve aragem com cheiro de ervas em bafejos convidativos, sopra de fora da choupana. Um herbanário diversificado e muito bem cuidado é o cartão postal do espaço contíguo à cozinha.
Lá fora a natureza reverencia um dos espetáculos mais belos e dignos de nota: o entardecer em suas nuances róseas alaranjadas... O tempo começava a esfriar...
Um leve rangido nos gonzos da porta principal de madeira pesada, faz-se ouvir. Adentrando a casa surge a figura de um homem envergando uma simples túnica até o joelho, sobreposta a uma calça comprida em tecido de algodão cru. Aquela vestimenta alva harmoniza-se ao semblante adornado por um olhar sereno e emoldurado por cabelos encanecidos pela ação do tempo... É um olhar puro, curativo, cativante... Sua vida é de lutas, limpando feridas físicas e morais, suavizando com conselhos sábios a dura existência de muitos que ainda não haviam aprendido a lidar com as cruezas do caminho, por ainda não terem desenvolvida dentro de si, a destreza proporcionada pela fé verdadeira. Traz às mãos um feixe de lenha, para avivar as chamas de velha lareira que crepita debilmente, visto a friagem aproximar-se.
Chega e põe combustível na lareira. Caminha até o fogão e retira o caldo que já está pronto em silenciosa ebulição... Faz sua refeição em silêncio reflexivo... Após nutrir-se adequadamente, executa a última faina do dia... Louça lavada e guardada, dirige-se ao aposento particular, onde aos últimos raios do dia, vislumbra-se uma cama e uma cômoda de madeira, muito modestas. Processa a higiene adequada ao repouso da noite, e põe-se em silêncio meditativo na oração. Louva Aquele que é o Pai de todas as coisas, agradecendo a força com que Ele o agracia, na fiel execução de sua missão juntos aos filhos amados do Seu coração paternal, perdidos nos descaminhos morais. E na justeza das obrigações santificadas repousa um missionário de Deus, onde, pelo sono reparador da noite, prepara-se para mais um dia que se avizinha de trabalhos nobres e edificantes ...
Karina Alcântara
05 março 2011
Soneto a Quatro Mãos
Tudo que fala em mim de amor foi dito.
Do nada em mim o amor fez o infinito
Que por muito tornou-me escravizado.
Tão pródigo de amor fiquei coitado
Tão fácil para amar fiquei proscrito.
Cada voto que fiz ergueu-se
Contra
Tenho dado de amor mais que coubesse
Nesse meu pobre coração humano
Desse eterno amor meu antes não desse.
Pois se por tanto dar me fiz engano
Melhor fora que desse e recebesse
Para viver da vida o amor sem dano.
Paulo Mendes Campos
e Vinícius de Moraes
e Vinícius de Moraes
26 fevereiro 2011
Ser de ti...
Ser de ti, bem mais do que penso...
É tudo a que aspira minh’alma
Insone que vaga entre dores.
Buscando asilo na calma...
Ser de ti, bem mais do que penso
É o que traduzo para mim:
Idílio constante em meu ser
Sentindo tua alma afim.
Ser de ti, bem mais do que penso
É dádiva para mim, incontesta.
Balsamiza meu ego lacerado,
Conservando-me a paz impressa.
Karina Alcântara
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